Reciclagem

Outubro 18 2010

É separando plásticos, metais, papel, vidro, dos restos de comida, frutas, verduras e todo o material que forma o lixo orgânico que Eloaine de Mello, 26 anos, ajuda o marido, pequeno agricultor, a sustentar a casa e três filhos pequenos. Ela integra a equipe de 62 trabalhadores da Cooperativa de Recicladores de Resíduos Orgânicos e Inorgânicos (Coopercicla) de Santa Cecília do Sul (RS), um pequeno município a 300 quilômetros de Porto Alegre, próximo a Passo Fundo.

A cooperativa processa os resíduos de oito municípios da região, fazendo também o recolhimento e a coleta seletiva em três deles (Tapejara, Charrua e Ibiaçá), inclusive na área rural e numa reserva indígena, mediante contratos com as prefeituras. Com a reciclagem e a compostagem a Coopercicla reaproveita 88% de todo o resíduo que chega à triagem, 350 toneladas mensais, um índice considerado excelente pelos especialistas. O rejeito, o que não pode ser aproveitado, é encaminhado para um aterro sanitário próprio, ao lado da sede.

A partir de 2012, a intenção da Coopercicla é só trabalhar com municípios que façam a coleta seletiva, adianta o coordenador geral, Osmar Vidal. “Fazemos palestras nas escolas, no comércio e para a terceira idade sobre como é trabalhar com o lixo, os ganhos para o meio ambiente e a sociedade que nós temos com a reciclagem”. 

Vidal é um dos fundadores da cooperativa, que começou sua história em 1991, como um movimento de resistência de um grupo de pequenos agricultores ao êxodo rural. Sem disposição de tomar o caminho da periferia das grandes cidades, como acontece na maioria das vezes, eles fundaram uma associação para tentar se manter no campo.

Com o tempo, passaram a prestar serviço a algumas prefeituras. Tapejara manifestou interesse na reciclagem e então formaram a Coopercicla, em 2002. Para começarem, a prefeitura cedeu a área, o Governo do Estado repassou R$ 94 mil para instalações e equipamentos e a Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho colaborou com R$ 13 mil. Assessorias técnicas em todas as áreas (cooperativismo, contábil, ambiental, saúde e jurídica) ajudaram a organizar e aprimorar os serviços da cooperativa.

Material eletrônico

Além dos resíduos comuns, eles também fazem a coleta de material eletrônico e perigoso, num Ecoponto em Tapejara, onde recolhem televisores, computadores, lâmpadas fluorescentes e outros materiais, que são negociados com 27 empresas de descontaminação e reciclagem do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo. 

“Já enfrentamos muitas dificuldades, mas somos bem unidos, bem organizados”, conta o ex-agricultor Jandir Bogoni, 38 anos, que integra a cooperativa desde que ela foi criada, em 2002, fazendo de tudo, na carregadeira, na compostagem, na triagem, no desmonte de equipamentos para aproveitamento do alumínio, ferro e cobre. Segundo ele, dá para viver bem com o que ganha e não trocaria a Coopercicla por outro trabalho.

Com um vencimento mensal de cerca de R$ 700,00 líquidos, os trabalhadores, com a escolaridade média de primeiro grau incompleto, recebem vantagens que dificilmente teriam em alguma empresa das redondezas: transporte e almoço gratuitos, vale alimentação, fundo de férias, gratificação natalina, gratificação por tempo de serviço, adicional de produção, seguro de vida, convênio de saúde, entre outros benefícios. 

A organização e a eficiência da Coopercicla, com um alto grau de inclusão social dos cooperativados, tem chamado a atenção dos especialistas no assunto. Ela foi a principal atração, por exemplo, no seminário sobre resíduos sólidos realizado pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e a Universidade de Rio Grande (Furg), em agosto, naquela cidade da Metade Sul. “Queremos chegar a 100% de reaproveitamento dos resíduos coletados”, afirmou Vidal, em sua palestra.

Consultor do MMA

O engenheiro e consultor do Ministério do Meio Ambiente (MMA) para resíduos sólidos, Dan Moche Schneider, ficou bastante impressionado. Disse que, em geral, as cooperativas de catadores do país enfrentam muitos problemas, especialmente na relação com as prefeituras para quem prestam serviços. Existem ainda as “Coopergatos”, que são as cooperativas de fachada para exploração de mão-de-obra barata. 

“Pelo que vejo a Coopercicla conseguiu avançar de forma surpreendente em todas as questões que dizem respeito ao seu gerenciamento, a ponto de prestar serviços a outros municípios, temos muito que aprender com ela”, disse Schneider. Segundo ele, hoje há muitas fontes de recursos disponíveis para as cooperativas de catadores na Funasa, Ministério das Cidades, MMA, BNDES e Caixa Econômica Federal.

O coordenador regional da Funasa no Rio Grande do Sul, Gustavo de Mello, visitou a Coopercicla e confirmou tudo que se diz sobre ela: “O Rio Grande do Sul deve ter orgulho do trabalho que vocês fazem aqui, vocês são um exemplo para o nosso Estado”, disse Mello aos trabalhadores reunidos no galpão de triagem. Também Ministério do Trabalho e Ministério Público já fizeram vistorias e aprovaram o que viram, com muitos elogios.

Com verbas da Funasa e do BNDES que já foram aprovadas, a cooperativa planeja comprar equipamentos, oferecer melhores instalações aos trabalhadores e dobrar sua produção. Assim será possível oferecer mais trabalho e renda a pessoas como Eloaine, a mãe dos gêmeos Renan e Luan, 6 anos, e de Alexandre, de 2 anos. “Adoro esse trabalho, tenho orgulho de estar aqui porque vejo como é importante, vai ser muito difícil trocar por outro emprego”, diz a catadora, numa pausa na esteira de triagem, onde os resíduos ainda chegam misturados. 

Em pouco tempo, ela desenvolveu um olhar crítico sobre o desperdício que vê todos os dias passar à sua frente. “Aqui a gente aprende que tudo tem valor, falo isso para meus filhos, para minha família, chamo a atenção de quem joga plástico na rua... seria bom que todos se conscientizassem, haveria muito mais coisas para serem aproveitadas”.

Fonte:ecoagencia

 

publicado por adm às 22:30

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